Mãe, conheci alguém.


Mãe, conheci alguém.
Alguém que vai de acordo com os ideais que criaste para mim.
Alguém que não me vai magoar.
Alguém que aceitarás, talvez, até para genro.
Não é baixo, nem alto. Anda perto da minha altura. Quando calçar uns saltos, ficarei mais alta. Mas tu, minha amada mãe, disseste que a altura não importa quando é realmente amor.
É bonito. Embora tu sempre tenhas dito, que a beleza exterior não é assim tão relevante.
Não fuma ervas. Não bebe. Não sai à noite. E não gosta de tatuagens. Nem gosta do Lucas & Mateus. E tampouco conhece o Deau.
Tu prefere-lo assim. Não diz palavrões. Todos irão aceitá-lo nos jantares de família ao domingo. Ninguém irá incomodar-se que ele apareça de brinde ao meu lado, nas festas de aniversário. Até podemos dividir-nos entre a casa da família dele e da nossa no Natal e nas outras épocas festivas.
Tu prefere-lo assim. Cheiro bom a perfume caro, barba feita, roupa impecável, um verdadeiro homem. Qual sapo, qual quê? A mim serviram-me um príncipe irremediavelmente perfeito, de bandeja. As filhas das tuas amigas, irão roer-se de inveja.
Mas cá eu, mãe, nem me importo. O cheiro a vagabundo sempre me seduziu muito mais. A barba por fazer, o cabelo desalinhado e o caminhar descontraído…
Então mãe, fingi-me apaixonada. E por momentos acreditei que conseguia ter esperanças em alguém que nem sequer fazia a pupila dos meus olhos dilatar-se. Mas não deu. Nem dá.
Ele não combina comigo. Não dançamos a mesma música. Não fazemos parte da mesma equação. Eu sou o valor de x que ele nunca conseguirá descobrir por mais que tenha licenciatura e seja nota 20 a matemática. Ele é daqueles que merece ser amado e só por isso é impossível amá-lo. Eu gosto mesmo é do perigo. De quem me tira a sanidade.
E ele não.
Ele não gosta do cheiro a tabaco embrenhado nos meus fios de cabelo.
Ele nunca viu as tatuagens no meu peito.
Ele não sabe de todas as noites que entrei em casa a cair de tanto álcool.
Ele não sabe das lágrimas que derramo todas as manhas.
Ele não imagina que as cicatrizes nos meus braços, são dos dias em que a depressão me foi derrubando e tentei arrancar de mim as memórias que entristeciam.
Ele acredita que não lhe respondo, apenas porque sou distraída.
Ele não sabe que não o atendo, porque não lhe quero ouvir a voz.
Ele acha que não o quero a dormir em minha casa, porque sou recatada, quando apenas não quero o calor do corpo dele a colidir com o meu.
Ele acha que sei cozinhar bem, mas que não o faço por preguiça.
Ele disse que gostava de mim e eu assenti que também gostava dele, quando, facto era, que estava a ver outro alguém totalmente diferente, na minha mente.
Mas de tanto que me leu, acreditou que eu era a romântica incurável que o esperava ansiosamente, porque ele, ele é um homem de verdade.
O homem porém, que haveria de marcar a minha vida, já veio e partiu.
Fiquei apenas eu e uma saudade, que hoje reprimo, enquanto digo a este tão bom rapaz que aceito dar-lhe a mão na rua.
Tenho procurado aquele que ainda amo em tantos outros, mãe. E vou coleccionando partes de alguém que não vai voltar.
Uns tem o corte de cabelo semelhante.
Outros fumam erva.
Outros contam as piadas que me fazem rir.
Outros tem a voz parecida.
Outros gostam de techno e sertanejo.
Outros são inteligentes.
E nenhum se encaixa completamente no estereotipo do homem que perdi.
Mas quando eles são o que ambicionas para mim, mãe, ainda lhes dou o beneficio da dúvida. E tento tentar gostar deles.
Achei que se tentasse muito tentar, um dia até iria desejar acordar com uma mensagem dele de bom-dia. Mas nem isso mãe.
Ele é um homem tão perfeito, que me faz sentir mal comigo mesma.
Tão perfeito que tentei imaginá-lo a tatuar uma tribal nas costas e umas estrelinhas na mão. Tão perfeito que tentei imaginá-lo a ouvir Lucas & Mateus e a dançar techno como aqueles fritos todos que vão à discoteca. Tao perfeito que tentei imaginá-lo a fumar erva no calvário junto com meia dúzia de amigos. Tão perfeito que o desejei menos perfeito, menos bonito, menos inteligente, menos educado e até um pouco louco.
Desejei vê-lo vestir uma t-shirt branca e umas calças de ganga rasgadas. Desejei vê-lo com a barba por fazer. E desejei vê-lo chegar a casa às sete da manha a confundir o isqueiro com a chave de casa.
Dar-me-ia ele, tudo aquilo que uma mulher necessita para uma vida saudável e agradável.
Dar-me-ia ele, o prazer de um amor calmo.
Mas eu gosto mesmo é daquele amor tóxico. Que me tira de mim. Que me tira os pés do chão. Que me faz flutuar tanto ou mais que o ectasy.
Poderia ser ele, mãe.
E juro que tentei muito apaixonar-me por ele, mas só me apaixonei ainda mais por quem já era apaixonada.

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